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ÔNIBUS CAI NO RIO JAGUARIBE E DEIXA 36 MORTOS

Data:
13/02/1991 - Fonte: Jornal O Povo

Desgovernado, o coletivo se precipitou da ponte e mergulhou no rio. O desastre transformou o clima carnavalesco em Aracati em pesar. Doze passageiros sobreviveram.

 

Fernando Ribeiro - Enviado especial

 

O Aracati – Trinta e seis mortos, entre eles seis militares e oito crianças, inclusive um bebê. Este foi o saldo de um dos piores acidentes já registrados no Ceará, e que transformou em tragédia o Carnaval desta cidade (q 136 quilômetros de Fortaleza). O desastre ocorreu por volta de 5h30min de Sábado último na BR-304, altura do quilômetro 48, sobre a ponte estreita que corta o Rio Jaguaribe, na entrada da cidade. o ônibus de prefixo 356 da empresa Expresso de Luxo, que procedia de Recife (Pernambuco) precipitou-se do alto da ponte após manobrar à esquerda para evitar o choque com uma carroça. A alegria de milhares de foliões que haviam se deslocado a este município logo deu lugar a um misto de tristeza e solidariedade às autoridades e às famílias das vítimas. Pelo menos 2 pessoas sobreviveram, sendo retiradas das águas por populares que aquela hora se encontravam na churrascaria “Beira-Rio”, a menos de 100 metros de distância do ponto onde o coletivo despencou.

 

A operação resgate, procedida por soldados da guarnição de busca e salvamento do Corpo de Bombeiros de Fortaleza (que haviam se deslocado à Aracati como reforço as praias de Majorlândia e Canoa Quebrada) recebeu colaborações de policiais civis e militares, além do grupo de socorro da Petrobrás, e, principalmente, de muitos voluntários, que cederam pequenos barcos para o transporte dos corpos até as margens do rio.

 

Até as 18 horas de Sábado os trabalhos no local continuavam, na tentativa de serem encontrados cadáveres de pessoas dadas até àquele momento como desaparecidas.

 

QUEDA DA PONTE

 

O desastre ocorreu poucos minutos depois do ônibus fazer uma parada nesta cidade onde teria, supostamente, desembarcado a passageira Maria José Gonçalves de Oliveira, acompanhada de uma filha menor cujo nome não foi revelado pela Polícia. O coletivo (extra) sairá de Recife às 19 horas de sexta-feira e sua chegada à Fortaleza estava prevista para no máximo 7h30min. Segundo versão da Polícia, o veículo conduzia 48 passageiros (a lista oficial da empresa revelou que constavam o nome de 37 compradores das passagens).

 

O ônibus, conforme supõe peritos do Instituto de Criminalística que compareceram ao local, trafegava em alta velocidade pela ponte, quando seu guiador (José Adairtes Gadelha de Sousa), manobrou à esquerda, tomando a pista contrária para desviar de uma carroça. Ao perceber que perdera o controle da direção tentou um freio brusco, deixando na pista as marcas da frenagem. Não conseguiu evitar o desastre. O coletivo destruiu cerca de 10 metros da varanda da ponte e precipitou-se de uma altura de aproximadamente 15 metros, ficando completamente submerso. Por muito pouco não caiu nas margens, pois percorrera mais da metade da extensão da ponte.

 

CADÁVERES

 

A notícia do desastre teve efeito imediato. Em poucos minutos uma multidão cercou o local, obrigando os soldados do pelotão policial de Aracati a pedir reforço ao Primeiro Batalhão (Russas) para fazer um cordão de isolamento da área. As primeiras cenas do resgate foram chocantes. Um a um, os corpos iam sendo colocados às margens enquanto os feridos eram levados em carros particulares e viaturas policiais ao Hospital Luíza de Marilac.

 

Os mergulhadores dos Bombeiros resgataram, de início, 25 cadáveres. Todos foram colocados na carroceria de um caminhão. A multidão cercou o veículo e, num gesto de solidariedade, rezou em voz alta.

 

Não havia naquele momento possibilidade de identificação das vítimas. A confusão era geral, apesar dos esforços do delegado regional de Aracati, Flávio Artur Novaes, de tentar coordenar a operação sem impecilhos (sic). A falta de material dos Bombeiros ficou patente. Somente quatro horas depois uma equipe chegou ao local conduzindo equipamentos para mergulho em grandes profundidades. Os primeiros sobreviventes retirados do local foram o major do Éxercito Marcos Aurélio Costa Vieira juntamente com um de seus filhos, o menino Pablo, de 8 anos de idade. O militar perdeu no desastre sua esposa, Maria Isabel Carneiro Vieira e seus dois outros filhos, Fernanda, de 12 anos, e Bruno, de idade não revelada. Outro que escapou da morte foi o comerciante baiano Moretino Gonzaga dos Santos, 58 anos.

 

CAUSAS

 

As especulações em torno das causas do desastre logo ganharam força. Muitas pessoas contavam o fato da ponte ser extremamente estreita e, apesar de bastante longa, não contar com nenhuma sinalização e, o que é pior, ser totalmente escura à noite. As lâmpadas que deveriam iluminá-la estão todas queimadas há meses. Houve também quem comentasse que o motorista teria cochilado na direção. Chegaram também a supor que ele estivesse embriagado. Alguns sobreviventes afirmaram que ao chegar a cidade de Lages, no Rio Grande do Norte, o ônibus fez uma parada e nesta ocasião ocorreu troca de motorista, descartando assim a possibilidade do guiador estar exausto e, portanto, sonolento. Os peritos recolheram das ferragens do ônibus o taquígrafo para que este seja submetido a exames.

 

Após a retirada dos 25 primeiros corpos – e dos sobreviventes do desastre – os bombeiros e voluntários fizeram uma rápida busca e logo em seguida retomaram o resgate. Eram aproximadamente 16 horas quando o “rabecão” do Instituto Médico Legal deixou Aracati com uma leva dos 10 últimos corpos. A operação resgate chegou ao fim quando foram retirados das águas os cadáveres de dois homens, imediatamente identificados: eram o supervisor da empresa 3M do Brasil, Francisco Haroldo Brasil Rocha, 29 anos (que estava casado há apenas dois meses); e o de Paulo Célio Santiago Félix, 31 anos, casado, primeiro sargento da Aeronáutica, cearense, destacado na Base Aérea de Recife.

 

FUGA

 

As informações sobre o paradeiro dos motoristas do ônibus eram confusas até a manhã do domingo. O nome de José Adairtes Gadelha de Sousa chegou a figurar na relação dos mortos. Contudo, no dia seguinte o gerente de recursos humanos da empresa Expresso de Luxo, Antônio Siqueira de Sousa, confirmou, aos jornalistas no IML, que ele escapara. Seu paradeiro, porém, é desconhecido.

 

SOBREVIVENTE NARRA A AFLIÇÃO

 

“Considero ter nascido de novo. Foi um milagre”. A expressão, carregada de emoção e nervosismo foi do comerciante baiano Morentino Gonzaga dos Santos, 58 anos. Ele foi um dos sobreviventes do acidente com o ônibus da Expresso de Luxo. Ele conta que aproveitou o carnaval para ir até Recife resolver negócios. “Decidi vir a Fortaleza visitar uma amiga”, revelou. Com o rosto ainda ferido, em conseqüência de seus esforços para sair do ônibus pela janela, Morentino contou para os jornalistas o desespero seu e dos demais passageiros nos minutos que se seguiram à queda do coletivo nas águas.

 

Segundo ele, após a parada em Aracati o ônibus retomou a viagem, “tentava dormir, quando, de repente, ouvi uma batida. Pensei que o ônibus tivesse se chocado com outro carro”, explicou. Mas, o barulho que ele ouviu era provocado pela colisão do ônibus com a varanda da ponte sobre o rio Jaguaribe. A seguir, segundo ele, a aflição foi bem maior. Mesmo sabendo nadar muito pouco, Morentino conseguiu se desvencilhar da bagagem de mão e, se debatendo, chegou à superfície. “Juro que não sei mais o que aconteceu. Quando percebi, já estava aqui nas margens do rio e algumas pessoas perguntando se eu estava bem”, confessou. “Pedi a Deus que me mostrasse um caminho”, disse ele, se reportando ainda ao momento em que tentava não ficar preso no ônibus, onde, certamente, morreria afogado, como aconteceu à maioria das pessoas que perderam a vida no desastre.

 

SILÊNCIO

 

Outra que escapou foi a doméstica Balbina Blanco Trindade, de 63 anos de idade. Sua família, porém, não teve a mesma sorte. Nove de seus parentes, inclusive crianças, morreram afogados no interior do ônibus. Desesperada, ela relutou em deixar as margens do rio, buscando ficar no lado de cada um dos cadáveres de seus parentes mortos. “Quero ficar aqui”, dizia eles aos policiais que procuravam levá-la ao hospital.

 

O major Marcos Aurélio Costa Vieira – que perdeu a esposa e dois filhos – literalmente perdeu a voz, tão forte foi seu choque emocional. Em silêncio ele deixou o local em companhia do filho Pablo, que também escapou. Na delegacia de Aracati o jovem Júlio Alnei Tenório de Godoy, também sobrevivente, teve reação semelhante ao militar. De cabeça baixa, ele buscava esquecer o desespero que passara horas antes no interior do ônibus submerso no rio.

 

AFOGAMENTO MATOU A MAIORIA

 

Trinta e duas, das 36 pessoas que morreram no desastre foram vítimas de afogamento. A informação foi concedida pelo diretor do Instituto Médico Legal, Francisco José Ferreira Simão. “Poucos sofreram traumatismo crânio-encefálico e traumatismo raqui-medular”, disse Simão após o exaustivo trabalho de necropsia em todos os 36 cadáveres. Para este trabalho gigantesco, ele contou com a colaboração de praticamente todo o efetivo de legistas e auxiliares de necropsia do IML. Muitos médicos e auxiliares estavam de folga e, voluntariamente, se apresentaram no órgão ao tomar conhecimento do desastre logo cedo da manhã de sábado.

 

O clima no IML, com a chegada paulatina dos cadáveres era trágica. Dezenas de pessoas compareceram ali, a maioria por curiosidade, dificultando até mesmo a entrada dos “rabecões”, ambulâncias e do caminhão que de uma só vez deixou ali 25 corpos, Soldados do Batalhão de Choque foram deslocados até a sede do Instituto para isolar a área, permitindo o acesso ao necrotério somente aos familiares das vítimas para que fosse procedido o reconhecimento. “Num momento como este a gente tem que esquecer um pouco a burocracia e buscar amenizar a dor e o sofrimento das famílias”, dizia Simão aos jornalistas. Para apressar a liberação, ele permitiu que os corpos fossem entregues aos parentes mesmo sem a guia cadavérica, emitindo certidões de óbitos provisórias.

 

LIÇÃO

 

“É preciso que se repense a estrutura dos ônibus. A maioria destas pessoas que estão aqui hoje, mortas, ficaram presas no interior do ônibus. Não conseguiram sair pelas janelas. Não sabemos se as portas de emergências foram abertas. Mas, o fato é que todas certamente teriam maiores probabilidades de escapar se tivessem conseguido pelo menos sair do veículo”, disparou o médico. “O mesmo teria ocorrido se, ao invés de cair no rio o ônibus tivesse pegado fogo. Presos no veículo, os passageiros têm poucas chances de sobreviver”, finalizou.

 

CORPOS SÃO TODOS IDENTIFICADOS

 

È a seguinte a relação oficial dos mortos no desastre:

01 – Ana Carolina Trindade Pessoa

02 – Anderson Lima de Carvalho

03 – Ana Paula Ferreira Pinto (22 anos, estudante)

04 – Bruno da Rocha Vieira

05 – Blanca Trindade Pedrosa

06 – Carlos Alberto da Silva

07 – Evandir Rodrigues Dantas (18 anos, marinheiro)

08 – Fernanda da Roche Silva Vieira

09 – Francisco Roberto de Sousa Leão (fiscal de vendas, 25 anos)

10 – Francisco Haroldo Brasil Rocha (28 anos, supervisor de vendas da 3M do Brasil)

11 – Francisco da Silva Fernandes (engenheiro)

12 – Heraldo Pedrosa Neto ( Capitão do 7º GAC, de Recife)

13 – Isabel Blanco de Andrade

14 – José Maria Ferreira Lima

15 – Jorge Augisto Barbosa Sobreira (8 anos, estudante)

16 – Jorge Rafael Barbosa Sobreira (10 anos, estudante)

17 – José Silvio Araújo Tenório (29 anos, comerciante)

18 – José Narcélio Prata de Sousa (26 anos, bancário)

19 – José Maria Lima de Sousa (36 anos, supervisor da CBTU)

20 – Jonildo Lima de Sousa

21 – Kátia Maria Simões dos Santos (12 anos, estudante)

22 – Liege Blanco de Trindade

23 – Luis Carlos Quadros (advogado)

24 – Maria Auxiliadora Arruda Barbosa (36 anos, doméstica)

25 – Maria da Apresentação de Arruda (63 anos, aposentada)

26 – Maria de Lourdes Nogueira

27 – Maria Isabel Carneiro Vieira

28 – Moacir Pereira da Silva (marinheiro)

29 – Neli Simões dos Santos

30 – Paulo Célio Santiago Félix (1º sargento da Aeronáutica)

31 – Paulo Henrique Simões dos Santos (8 anos, estudante)

32 – Raimundo Cosmo Barreto (42 anos, cabo fuzileiro naval)

33 – Raimundo Nonato Braga (27 anos, comerciário)

34 – Rômulo Albuquerque da Silva (2º sargento da Aeronáutica)

35 – Tânia de Castro Sousa Leão (19 anos, estudante)

36 – Zeneide Dias (doméstica)

 

Segundo informação da Polícia, são os seguintes os sobreviventes:

 

01 – Paulo Carneiro Elias

02 – Reinaldo Alves Barros

03 – Balbina Blanco Trindade

04 – Josenildo Lima de Sousa

05 – Maria Claudia Lima Dália

06 – Marentino Gonzaga dos Santos

07 – Julio Alnei Tenório de Godoy

08 – Sergio Antonio Bonfim de Oliveira

09 – Maciel Pereira

10 – Marcos Aurélio Costa Vieira

11 – José Adairtes Gadelha de Sousa (motorista do ônibus)

12 – Maria José Gonçalves de Oliveira


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