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TRAGÉDIA EM BARRO -DESESPERO E DOR NA LIBERAÇÃO DOS CORPOS

Data:
25/02/2004 - Fonte: Jornal Diário do Nordeste - Polícia, p. 16

Dor! Desespero! Choro! Emoções que se misturavam à angústia da espera, e à revolta com a situação que caiu como uma bomba no Carnaval das famílias de 42 pessoas (ver lista ao lado) que morreram no acidente com o ônibus da empresa Itapemirim, na madrugada de sábado último. Entre a madrugada e o final da noite de domingo, dezenas de pessoas se aglomeravam no Instituto Médico Legal (IML), a fim de providenciar a retirada dos corpos de seus entes queridos. Ao contrário do que muitos achavam, diversas pessoas estavam viajando não para brincar a folia na Capital baiana, mas sim para visitar parentes em cidades ao longo do percurso entre Fortaleza e Salvador. Outros tinham vindo a trabalho para o Ceará, e tentavam retornar o mais cedo possível para passar o feriado prolongado junto às famílias. Infelizmente, não foi isso o que aconteceu.

 

Quando passavam pelo quilômetro 456 da BR-116, localidade de Cipó, a cinco quilômetros da cidade de Barro, o veículo - dirigido por Paulo Lima Monteiro, 45 anos, saiu da estrada e mergulhou nas águas do açude Cipó, matando os seus 42 ocupantes. O advogado Ricardo Alcântara perdeu a irmã, Denilce Maria Alcântara Alves, 30 anos, e o cunhado Evandro Santos de Sousa, de 31. “Os dois moravam aqui e tinha viajado para Salvador, a fim de visitar a família dele, pois o Evandro era baiano. Estavam casados há dois anos. Ele tinha o restaurante Tempero Baiano, enquanto minha irmã era enfermeira em Trairi, onde era muito conhecida”, explicou.

 

NEOZELANDÊS - Até o fechamento desta edição, apenas um corpo de vítima do acidente com o ônibus em Barro, permanecia numa geladeira do IML. Era do turista neozelandês Manu Lyall Pullin, 24 anos, que estava em Fortaleza e decidiu viajar para Salvador, onde passaria o Carnaval. Amigos disseram que seus familiares já haviam sido informados da tragédia e estavam providenciando a documentação visando realizar a sua liberação.

 

Os corpos das 32 primeiras vítimas começaram a chegar ao IML na madrugada de domingo (ver coordenada abaixo). Todos foram numerados e, no início da manhã, os parentes tiveram acesso ao necrotério para tentar identificá-los. Em pequenos grupos, as pessoas entravam no recinto onde os corpos estavam dispostos, e faziam a identificação. Este era o pior momento, pois muitos chegaram a passar mal e tiveram de ser amparados.

 

Familiares da jovem Jamilia Lima de Sousa, 16 anos, principalmente sua mãe, estavam inconformados. Ela estava seguindo para Salvador, onde passaria o Carnaval com o noivo, Genilson Eusébio Aires, que trabalha lá. Outro que estava ‘anestesiado’ com a tragédia era Francisco Cavalcante da Silva. Ele mora no Interior baiano e tinha vindo a Fortaleza visitar seus pais, junto com a esposa Maria Domingas Miranda, 22 anos, e os filhos Crislaine Miranda da Silva, de três, e Maurício Miranda da Silva, apenas 11 meses. “Não consegui o dinheiro para a minha passagem e minha família viajou antes. Mas aconteceu essa tragédia”, lamentou.

 

LISTA DO IML

 

Carla J. Lima de Sousa;

Francisco das Chagas Matias Pires;

Denilce Maria A. Alves;

Evandro dos Santos Sousa;

Sérgio R. Araújo Passos;

Arildo Alex Alves;

Francimar Gonçalves Barbosa;

José Adailton da Silva;

Manoel Evangelista de Sá;

Cleilton Silva de Barros;

Socorro de Maria Barbosa;

Vera Lúcia S. Fortes;

Antônio Francisco de Oliveira;

Ozildo Assis de Souza;

José Edson Bezerra;

Albuíno Bezerra Alves;

Mariana Sá de Oliveira Arruda;

Anita Aires Braga;

Silvana Cardoso Cruz;

Vilebaldo A. de Souza;

Antônio dos Reis Liberato;

Gilson José Alves;

Rose Meire Carlos Gomes;

Bernadete Maria Aires Braga;

Crislaine Miranda da Silva;

Crescêncio Silva Agraneman;

José Ricardo Rodrigues dos Santos;

Cláudio Dantas da Silva;

Manoel Romão de Sousa;

Marcos Antônio B. dos Reis;

Cláudio Roberto F. da Silva;

José Marcos da Silva;

José Moreira de Souza;

João de Deus Benevides;

Benedita Maria da Silva;

Raimundo Rodrigues Barboza;

Érico Luchel Matias de Farias;

Maurício Miranda da Silva;

Maria Domingas Miranda;

Paulo Lima Monteiro;

Manu Lyall Pullin;

Possidônio A. Pereira.

 

ESTUDANTE NÃO EMBARCOU NO COLETIVO DA MORTE

 

A cadeira de número sete do ônibus 40229, da viação Itapemirim, estava reservada para Maria Izabel Fernandes Chaves. A estudante de Administração, de 20 anos, pagou R$155,00 pela passagem, com saída da Capital cearense marcada para as 20h30min da última sexta-feira. Por um compromisso profissional, mudou a data da viagem. E escapou de figurar entre as vítimas do maior acidente rodoviário registrado no Ceará desde 1991.

 

Izabel Fernandes desistiu da viagem de ônibus por motivo de trabalho. “Meu namorado mora em Salvador. Eu queria passar o feriado com ele, e comprei minha passagem no início de janeiro”, explica a estudante, que desde o dia 19 daquele mês passou a trabalhar na empresa Via de Comunicação, produtora de eventos como o Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga. Foi lá que a reportagem do Diário do Nordeste localizou Izabel, trabalhando como caixa no restaurante onde a equipe de produção do evento fazia suas refeições.

 

“Quando comecei na empresa, me chamaram para trabalhar em Guaramiranga, durante o Carnaval. Pensei melhor, juntei um dinheiro e resolvi vender a passagem de ônibus e ir para Salvador uma semana antes do Carnaval, de avião”, diz Izabel. No sábado, 21, por volta do meio-dia, ela soube do acidente pelo namorado, Caio Costa Bezerra. “O Caio me ligou, dizendo: ‘Ainda bem que você não veio pro Carnaval, porque o ônibus virou num rio, e morreu todo mundo’. Quando ele me contou isso fiquei atordoada por uns 10 minutos”.

 

DIFÍCIL TRABALHO DE RESGATE DOS CORPOS

 

O trabalho de resgate dos corpos foi extremamente difícil, tendo em vistas as condições do local onde o acidente aconteceu. Apesar do acidente ter ocorrido por volta das 4h30min de sábado, apenas por volta das 15h30min os primeiros corpos foram retirados do ônibus da Itapemirim. E esse trabalho só foi concluído no final da manhã de domingo, quando os bombeiros retiraram o cadáver do motorista Paulo Lima Monteiro.

 

Ainda na madrugada de domingo, às 3h25min, o caminhão-baú (refrigerado) de placa HVY-4104, pertencente à Funerária Anjo da Guarda, chegou ao IML com os corpos de 32 vítimas da tragédia. Uma a um, todos foram retirados do veículo e levados para o necrotério, a fim de serem numerados. às 4h37min todos já estavam no necrotério. às oito horas, iniciaram as necropsias.

 

Segundo o legista Francisco Simão, diretor técnico-científico da SSPDS, foi um esforço concentrado. “Realizamos 13 necropsias simultaneamente, pois nosso objetivo era minimizar o tempo de espera e, sofrimento, das famílias. Além dos quatro legistas do plantão, outros nove se apresentaram espontaneamente, para ajudar no trabalho. Encontramos pulmões e estômagos cheios d’água”.


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